VIVER TERESINA

É um espaço destinado a colher informações e a divulgar a poesia contemporânea brasileira, a tradição poética nacional e a vanguarda internacional. Historiadores e ensaístas poderão publicar também textos sobre a história do Brasil. O nome Viver Teresina é uma homenagem a um movimento literário criado pelo escritor Menezes y Morais nos anos 70 em Teresina.

Email: chicocastropi@gmail.com


domingo, 4 de julho de 2010

O DIABO VESTE A TIRANIA DA MODA


Acabei de assistir, aliás com muito atraso, ao filme O Diabo Veste Prada, do diretor David Frankel, (o mesmo de Sex and the City), baseado no romance homônimo do badalado jornalista Lauren Weisenberg. Confesso que a princípio relutei em ligar o DVD (tenho preguiça de sair de casa para ficar no escurinho do cinema) para ver o registro sobre o alto mundo da moda. Nada de preconceito sobre moda. Moda é arte, já dizia Roland Barthes, em ensaio famoso, no final dos anos 50. A minha relutância inicial, é ranço ou mania preconceituosa de quem, desde os anos 70, se acostumou com o melhor da cinematografia cult. Mas o meu reconhecimento pela criação magistral de Frankel se fez sentir logo no início.Só esqueci de fazer a pipoca no microondas e trazer o guaraná para sala da TV.

O filme conta à história de Miranda Priestly (Meryl Streep), uma tirana diretora de uma grande revista de moda. Depois de contratar várias moças para ser sua assistente, a todo-poderosa senhora do universo fashion, se vê às voltas com uma nova empregada, a jovem Andy Sachs (Anne Hathaway) que entendia tanto do assunto quanto eu da complicada Teoria da Incerteza, do físico alemão Heisenberg. Tinha, portanto tudo para não dar certo, mas acabou dando, pelo menos até quando resolveu, no final do filme, jogar uma carreira promissora para voltar aos braços do namorado, um simples cozinheiro de um restaurante para grã-finos em Nova York.

Do ponto de vista do roteiro o tema da comédia é simples. Uma moça bonita que tinha pretensões de ser uma jornalista bem-sucedida, acaba indo trabalhar num lugar onde a regra é o total afastamento dos mais puros sentimentos humanos. Mesmo porque, justifica um dos colegas, ela estava num lugar onde “um milhão de garotas morreria para conseguir”. Ao assumir a nova função, Andy tem, logo no começo, que desfazer-se de suas roupas, muito cafonas para o ambiente onde a moda evolui conforme as circunstâncias de um fabuloso mercado globalizado. Desajeitada, tudo no começo foi um desencontro, até que um belo dia, um dos encarregados dos grandes lançamentos, troca o figurino da estreante. Daí a razão do enredo do filme.Muda-se a roupa, transmuta-se a personalidade, sugere o inteligente diretor.

Da indumentária simples que vestia anteriormente, próprias de uma estudante recém-saída da faculdade, passa a usar peças da alta costura internacional. Até aí, tudo bem. Mas à medida que a diretora aprova o seu trabalho na proporção em que se veste adequadamente, a assistente começa a despir-se literalmente de seus sentimentos com a família, os amigos e o namorado. Uma bela metáfora capaz de mostrar como o trabalho sem fronteiras e excessivamente massacrante pode levar uma pessoa “normal” a despersonalizar-se e viver como um robô em função das demandas que o mundo das aparências exige como condição primordial.

O filme apresenta o glamour e a futilidade de uma parte privilegiada do misterioso nicho feminino. Glamour para os agentes envolvidos em desfiles, festas vips e viagens a lugares maravilhosos. E futilidade para muitos misturada com pitadas de inveja para outros que não podem, e provavelmente nunca terão, as condições necessárias de ter acesso a roupas, bolsas e outros acessórios que fazem a fantasia de milhões de mulheres em todo mundo. No fundo, o diretor mostra como a tirania e o sadismo se manifestam até em pequenos detalhes mesmo num ambiente em que aparentemente tudo é brilho e purpurina. Chega de soldados nazistas humilhando judeus miseráveis nos campos de concentração. Pois a obsessiva Miranda, vivendo no “inocente” encantamento da moda, pode muito bem fazer o mesmo trabalho sujo dos carrascos do III Reich.

O diretor sinaliza para três questões fundamentais da contemporaneidade: o trabalho, o sucesso e o amor. No primeiro caso, indica um tremendo paradoxo de uma sociedade que se moderniza na mesma velocidade em que diminui a geração de empregos, notadamente nos grandes centros urbanos. Milhares de jovens saem das universidades ou cursos técnicos sem saber ao certo se entrarão no cada vez mais competitivo mercado de trabalho. Se formam num determinado curso por eles vocacionado, mas terminam indo trabalhar num lugar completamente diferente da pretensão original. O choque entre o desejo de ser feliz e a dura realidade de um emprego extemporâneo faz nascer a sensação de que para tornar-se vitorioso é indispensável matar-se a si próprio ou passar por cima de tudo ou de todos.

A sociedade do espetáculo em que vivemos faz do sucesso a qualquer custo uma questão de honra pessoal. Nem que para isso seja preciso vender a alma ao diabo. As pessoas que se metem nesse imbróglio para alcançar os seus objetivos executam ou são levadas a praticar atos ou ações que em outras circunstâncias seriam perfeitamente descartáveis. É caso de Andy que se vê forçada a ir a Paris no lugar da amiga. Algo do mundo ficção repetido milhares de vezes na vida cotidiana. Mesmo sem querer, a assistente se vê na obrigação de comunicar para a colega de trabalho uma decisão que veio dos altos escalões da empresa. É o velho clichê: mana quem pode, obedece que tem juízo. O difícil foi convencer a outra de que ela não tinha nada a ver as decisões da magnética e autoritária Miranda.

Por fim, o amor. Andy ao se ver cada vez mais despersonalizada pelo trabalho extenuante e neurótico, esbarra-se com as pretensões apaixonadas do namorado. Então, numa grande recepção na capital francesa joga tudo para o alto, no auge da festa programada por Miranda, para voltar impetuosa e arrependida aos braços do rapaz, que ficara em Nova York.Ela tenta e consegue recuperar o amor quase perdido em função do tempo que gastou trabalhando por dinheiro no fascinante mercado da moda. Uma comédia romântica, portanto, em que uma pessoa ao se ver desumanizada, pode trocar o poder por uma vida simples desde que seja temperada pelo velho e sempre eterno sentimento amoroso.No final do filme,disfarcei para engolir uma lágrima.

Uma pequena estória em que o amor vence a tirania. Há muitas pessoas aqui de Brasília e em todo lugar que se comportam como Miranda, a personagem brilhantemente interpretada por Meryl Streep. Ao chegar ao poder, não interessa se militar, civil, ou um belo cargo comissionado do Governo Federal, um ex- Zé Ninguém passa a tratar os subordinados com mais autoritarismo e ferocidade, do que os seus antigos opressores.Quase todo mundo enlouquece com o poder. Dizem que é afrodisíaco. Acho que é, se se levar em conta o que disse uma velha raposa da política brasileira: “Política é namoro entre homens.”

Mas uma coisa é certa: o poder sabe criar dragões com cara de anjos. Parece que para chegar lá, com certeza, é preciso ter a consciência da linha demarcatória que separa o sentimento da razão. Porque, assim como no mundo da moda, o poder vive à custa das aparências, e que se danem aqueles que teimam em revelar a sombra que se oculta por detrás dos flashes e dos sorrisos.

Chico Castro – Brasília/2006

Nenhum comentário:

Postar um comentário